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Homens que usam a não monogamia como álibi de irresponsabilidade.



Quando a gente fala de não monogamia, tem uma conversa que precisa ser feita com muita honestidade. Especialmente sobre homens cis dentro da não monogamia. Porque nem tudo que alguns homens chamam de não monogamia é, de fato, não monogamia.

A não monogamia é uma pauta profundamente política. E ela é, sim, uma pauta importante pro feminismo. Porque não dá pra falar de relações fora do modelo tradicional sem falar de poder, de gênero, de machismo, de quem sempre pôde tudo e de quem sempre teve que engolir quase tudo. Questionar a monogamia sem questionar o machismo é só trocar o nome da mesma desigualdade.

O que acontece muitas vezes é o seguinte. Homens cis entram na não monogamia como se estivessem entrando num modo “solteiro premium”. Como se fosse só mais liberdade pra fazer o que sempre quiseram fazer, só que agora com um discurso bonito por cima. Eles trazem toda a bagagem da socialização masculina, toda a lógica de consumo de corpos, toda a ideia de que afeto é acessório e responsabilidade é opcional. E chamam isso de não monogamia.

Mas isso não é não monogamia. Isso é só repetir o mesmo roteiro de sempre, só que com outra embalagem.

Tem homem que acha que ser não monogâmico é não dever explicação, não dever presença, não dever cuidado. Como se liberdade fosse sinônimo de desaparecer. Como se vínculo fosse uma coisa que só existe quando convém. E, curiosamente, quase sempre quem paga o preço disso são mulheres. Mulheres que seguram a parte emocional. Mulheres que escutam. Mulheres que acolhem. Mulheres que ficam com o trabalho afetivo que esses homens não querem fazer.

A não monogamia, se levada a sério, exige exatamente o contrário do que o machismo ensinou. Exige escuta. Exige responsabilidade. Exige olhar pro impacto das próprias escolhas. Exige parar de tratar pessoas como cenário da própria vida. Exige entender que liberdade sem cuidado vira só mais uma forma de violência.

Outro erro muito comum é usar a linguagem da não monogamia pra justificar comportamento egoísta. “Eu sou assim mesmo”. “Você tem que lidar com isso”. “Não posso prometer nada”. Como se política relacional fosse uma carta branca pra não se comprometer com nada além do próprio desejo imediato. Isso não é maturidade afetiva. Isso é fuga de responsabilidade com um vocabulário mais sofisticado.

E aí entra um ponto central. A não monogamia, se quiser ser minimamente coerente com o que propõe, precisa encarar de frente a questão de gênero. Precisa encarar o machismo que atravessa as relações. Precisa perguntar quem cuida, quem cede, quem se adapta, quem é chamado de exagerado, quem é chamado de carente, quem é chamado de difícil. Porque essas coisas não se distribuem de forma neutra. Elas têm lado. Elas têm história. Elas têm corpo.

Não monogamia não é sobre ter acesso a mais pessoas. É sobre mudar a forma como a gente se relaciona com as pessoas. E isso, pra homens cis, passa obrigatoriamente por desaprender muita coisa. Desaprender a confundir desejo com direito. Desaprender a confundir autonomia com indiferença. Desaprender a confundir franqueza com brutalidade emocional.

Se você entra numa relação dizendo que quer liberdade, mas sai deixando rastro de gente machucada, ignorada, descartada, o problema não é que as pessoas são “sensíveis demais”. O problema é que você não aprendeu, ou não quis aprender, a se responsabilizar pelo que faz.

E é importante dizer isso sem rodeio. Tem muito homem usando a não monogamia como escudo pra continuar praticando as mesmas dinâmicas de sempre. Só que agora com discurso progressista. Só que agora com palavras bonitas. Só que agora com uma estética de desconstruído. Mas o centro continua o mesmo. O próprio umbigo.

A não monogamia, quando levada a sério, é profundamente desconfortável pra quem foi criado pra nunca ter que olhar pro próprio poder dentro das relações. Ela te obriga a rever privilégios. Te obriga a encarar inseguranças sem jogar isso nas costas do outro. Te obriga a construir cuidado como prática, não como promessa vaga.

Por isso dá pra dizer sem medo. Nem tudo que homens cis fazem em nome da não monogamia é não monogamia. Às vezes é só machismo com novas palavras. Às vezes é só irresponsabilidade afetiva com uma estética mais moderna.

E talvez a pergunta mais importante não seja “quantas pessoas eu posso me relacionar?”. Talvez seja “que tipo de homem eu estou sendo dentro das relações que eu construo?”. Porque sem essa pergunta, não tem modelo relacional que resolva. Só muda o cenário. A ferida continua a mesma.

 
 
 

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© 2023 por @snaomono

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